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  • Dra. Luciana Gandra

O coração e suas escolhas


Quando vi seu nome na agenda daquele dia senti alívio. “Ela sobreviveu !!”, pensei com meus botões . Nosso último encontro fora trágico. Sara não conseguia sustentar o próprio olhar. Mal falava, havia perdido muito peso. Sua pele pálida e sem viço denunciavam total desolação. Aquela cena havia me causado imenso desconforto.


Estávamos tratando um câncer na mama. Sara descobriu o nódulo durante exames de rotina. A cirurgia foi ótima! Ela não cansava de dizer que não se sentia doente!! Porém, devido a características biológicas do nódulo, seria necessário fazer a tão temida quimioterapia. Expliquei tudinho pra ela. Como seriam os efeitos, quais seriam os riscos, benefícios, e decidimos juntas, que ela faria o tratamento.


Alguns meses depois, me mandou notícias a médica oncologista. Sara estava ótima!! Havia suportado bem as primeiras sessões. Porém, em algum momento seu corpo não resistiu. Os medicamentos fizeram um estrago. No dia em que a vi naquela situação me senti mal. Não deveria, pois seguimos os “protocolos” e “consensos” dos melhores serviços de oncologia do mundo. Danem-se os protocolos. Minha vontade era voltar no tempo e ter deixado Sara seguir sua vida em paz. Brincar com seus netos, ver novela, cuidar das plantas. Naquele momento, me restava a tarefa de devolver a dignidade àquela mulher positiva e lutadora.


Agora, meses depois, Sara entra na minha sala com um sorriso vitorioso nos lábios . “Te dei um susto né doutora! Mas já estou ótima!!” Retribui com um grande abraço e palavras de incentivo. Assim que escapou do meu abraço apertado, tomou minhas mãos entre as suas e me encarou com aqueles olhos redondos e muito profundos. Fez uma pergunta simples e direta: “Doutora, porque a senhora escolheu essa vida?”

Bem, aquilo não estava no “script “. Quem faz as perguntas aqui sou eu. Tossi, engasguei, me mexi. Seus olhos continuavam a me questionar, sem trégua. Entrei num túnel e comecei a procurar rapidamente o momento em que aquela decisão havia nascido, uma luz, uma anunciação, vasculhei tudo e voltei de mãos vazias.

“Sara, isso não sei te responder”, ela merecia minha sinceridade. “Posso dizer que persisto na escolha porque na maioria das vezes, saímos vencedoras! ”Sara conformou-se com aquele clichê e seguimos com a consulta.


O assunto me inquietou nos dias subsequentes. Muitas escolhas são feitas no modo automático, pois estamos ocupados, muito ocupados o tempo todo. Um belo dia nos percebemos como fruto de tudo aquilo que escolhemos. Escolhas impetuosas, escolhas por despeito ou por amor. Escolhas corajosas ou pura covardia. Elas estão todas ali, como um grande quebra-cabeças, ora perfeitamente encaixadas, ora perdidas procurando outra peça, buscando fazer parte do todo.


Por fim consegui detectar momentos e escolhas que me trouxeram até aqui. Devo essa explicação para aqueles olhos profundos, que certamente me querem tão bem.

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