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  • Dra. Luciana Gandra

Mude sua visão da vida ao ouvir

Atualizado: 18 de Abr de 2019



“Doutora, tem uma senhora aqui toda atrapalhada com a data da consulta, veio hoje mas está marcada semana que vem. A senhora pode atender ?“ Pensei : Hoje????? Sexta feira? Minha secretária insistiu, dizendo que uma paciente não viria, então... Tá bom! Eu atendo. Ela entrou dizendo que precisava apenas que eu olhasse sua mamografia.


Haviam pedido que ela visse um mastologista, pois havia tratado um câncer de mama há 10 anos. Fiz algumas perguntas de rotina, respondidas secamente, como quem não está disposta a prolongar o assunto.


Examinei as mamas, sugeri que ela realizasse nova mamografia em um ano e acabou. Fim da consulta. Só que havia mais alguma coisa, me interessei em de olhar de perto aquela mulher. Ela vestia preto. Seu cabelo preso, com um coque baixo estava sem vida. Suas mãos grossas e ásperas pareciam sofridas, mas unhas eram aparadas e limpas. Notei leve inchaço no braço esquerdo, onde havia retirado gânglios axilares na cirurgia. Ela se apoiou na mesa, como quem faz menção de levantar-se dizendo : “obrigada por me atender, é difícil sair de casa, meu marido é acamado...” Pegou a bolsa, sacola de exames e foi em direção à porta.


Aquela frase quase balbuciada ecoou pela sala. Parecia que um elefante havia adentrado o recinto e estava arrumando um cantinho pra sentar.

Tive vontade de saber: “O que acontece com seu marido?” Ela me encarou; acho que pensando se eu merecia ouvir sua história de vida dos últimos 5 anos. Os olhos azuis bem claros eram vivos e brilhantes. Haviam vestígios de maquiagem definitiva nas pálpebras. “ Ele tem Parkinson. Foi muito rápido e devastador. Agora não se move. Não dobra as pernas, não consegue engolir a saliva, gosta que a TV fique ligada mas não abre os olhos.


Perguntei se ela cuidava dele sozinha. “ Foram 45 anos juntos. Ele fazia tudo pra mim. Era forte e disposto. Não consigo deixar outra pessoa cuidar dele. Só saio para ir ao médico .” O silêncio instalou-se. Olhei pra ela e vi um pedido de socorro. Não consegui falar nada, tamanho respeito e honra por estar diante daquela mulher, dividindo comigo sua história. As lágrimas guardadas há tanto tempo não foram contidas dessa vez. Vieram lavar um rosto resignado. Contou toda sua rotina, a força para colocá-lo na cadeira, levar pro banho, as inúmeras toalhas lavadas diariamente, uma devoção emocionante. “Só eu aspiro sua garganta. Se não fizer direito, ele pode afogar com a saliva e pegar uma pneumonia”.


Quem cuida de alguém com tamanha dedicação, se anula. Quantas pessoas vivem assim e habituam-se com a rotina? Meu coração inundado de compaixão, dividiu por alguns momentos aquele fardo, que era só dela. A vida é assim. Sugeri um banho de leito que facilita a higiene ( banho Selàh), pedi que ela separasse tempo curto para sair de casa, tentasse delegar algumas funções. Só para descansar a visão embrutecida do seu próprio cotidiano. Ela se levantou apressada, tinha que retornar.


Me agradeceu mais uma vez, e dessa vez com todo coração. Não precisava de uma mastologista. Precisava dividir, um pouquinho que fosse, sua realidade. Desafogar sua alma para prosseguir naquele caminho, que ela fazia questão absoluta de trilhar. Minha semana foi dura, dei até umas reclamadinhas em alguns momentos. Hoje me senti pequena diante de tamanha força e dignidade. Mas acima de tudo feliz, por dedicar meu tempo a escuta.


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